Falar
de Portugal, estudar a sua história, é falar da Terra e do Mar. Com efeito,
outras nações se constituíram, viveram ou vivem sem que o mar tivesse que ver
com a sua existência. Portugal não. Portugal é Terra e é Mar.
Para entendermos essa Pátria, a sua
personalidade, mostrada ao longo dos séculos, a sua alma, há que ter diante dos
olhos que, desde sempre, neste canto ocidental da Península Ibérica, o Mar e a
Terra se uniram, de tal modo que ver a Terra é sentir o Oceano e ver o Mar é
compreender a Terra... Por isso se pode dizer que, se a Terra é a carne de
Portugal, o Mar é bem o seu sangue. Eis por que neste breve estudo em que vamos
apontar aquilo que é fundamental na história portuguesa veremos a história da
Terra e do Mar em que se criou, e vive e sofre e sonha o homem português...
O que caracteriza o território onde
havia de formar-se o Portugal europeu é ser uma estreita faixa situada na
região ocidental da Península Ibérica e inclinada para o mar, de norte a sul,
em declive suave. Terra que volta as costas ao território europeu, e vai
olhando o mar, vai descendo para o mar, até mergulhar nele as suas areias
doiradas ou as suas arribas imponentes... Terra que se abre, que se dá ao
oceano e dele recebe a benção das brisas e das chuvas, a doçura do céu, a
atração dos caminhos do infinito.
O mar que banha a terra portuguesa é
o Atlântico. E, nessa região o Atlântico é ameno, benéfico... As suas águas, ao
longo de toda costa de Portugal, são quentes e quase sempre calmas, os céus são
límpidos e os ventos favoráveis. Há riqueza de peixe. Do calor das águas
beneficia a terra e beneficiam os homens, que desfrutam por isso de um clima
temperado, que ajudou a modelar a alma portuguesa... E da riqueza de peixe, e
da calma e limpidez dos horizontes oceânicos, nasceu a vocação marítima dos
habitantes desta extrema da Península Ibérica – nasceu a vocação marítima de
Portugal.
Quem foram os primeiros habitantes
desta região? A resposta é difícil. Aceita-se que antes de Cristo, viveram na
Península Ibérica gentes que dela seriam originárias, gentes que, tanto quanto
se pode dizer, não tinha vindo de quaisquer outras regiões. Alguns chamam a
estes primeiros habitantes, genericamente, Iberos. Porém desde muito cedo
começam a encaminhar-se para esta zona povos de outras partes, fixando-se
muitos deles na região mais ocidental - aquela que havia de ser, mais ou menos,
a terra portuguesa -, misturando seu sangue com o dos naturais dela.
Estes povos invasores, se
considerarmos os Iberos como indígenas, foram os Fenícios, os Gregos, os Celtas,
os Cartagineses, os Romanos, os Alanos, os Vândalos, os Suevos, os Visigodos e
os Moiros. De entre todos foram muito importantes, rácica e culturalmente, os
Celtas. De tão grande mistura de raças que ao longo dos séculos se foi fazendo
(podemos dizer do século XII antes de Cristo até ao século VIII depois de
Cristo) saíram os povos peninsulares, saiu o povo português.
As
nações, com a responsabilidade histórica da gente portuguesa, não podem
imobilizar-se extaticamente, nem devem iludir-se infantilmente; têm que
desentranhar sucessivamente da massa das suas tradições e aspirações um ideal
coerente com a conjuntura histórica, que exprima e defina o seu estar mudável
em concordância com o seu ser permanente. (CARVALHO, 1953, in EDUARDO LOURENÇO,
1998, p.8)
Mostra-nos
a história que os habitantes da parte mais ocidental da Península apresentaram
sempre características especiais, que os tornaram, no decorrer dos tempos,
diferentes dos outros povos iberos. Uma das suas características dominantes, já
nas épocas remotas em que começa a sua história é o amor pela independência,
que os leva sempre a negar-se, até à última, a viver subjugados por estranhos.
Comportamento
que trazem consigo desde as suas origens e que reflete também nas grandes
navegações que tiveram início no século XV. Os europeus começaram a desenvolver
o comércio entre a Europa e o Oriente (na Ásia, principalmente na região das
índias). As chamadas especiarias eram originárias da Índia, da China e do
Ceilão, chegavam as cidades de Alexandria e Constantinopla, trazidos pelos
árabes. Essas mercadorias eram comercializadas na Europa por preços muito
elevados, pelos comerciantes italianos. Portugal ambicionava fazer esse
comercio, diretamente com as Índias, comprando os produtos e revendendo-os por
um valor superfaturados. Por esse motivo, resolveram procurar um novo caminho
para as Índias, viajando pelo Oceano Atlântico, contornando o sul da
África.
Dir-se-ia
que as várias gentes que vieram no correr dos tempos instalar-se nesta faixa se
foram adaptando, fundindo com uma personalidade popular forte, independente,
que já aqui encontravam – e, assim, um mesmo caráter se manteve, se fortificou,
se transmitiu no decorrer das idades, ainda que a raça se fosse alterando,
enriquecendo, com as sucessivas fusões de sangue. Sangue dos que cá estavam
antes das invasões? Sangue de celtas, de romanos, de suevos, de visigodos, de
moiros? De toda essa nação tem algum – de uns mais, de outros menos,
evidentemente... Mas, acima de tudo, uma personalidade diferente de cada uma
das personalidades destes povos, uma personalidade vigorosa, moldada pelas
misteriosas origens rácicas, pelo meio geográfico, pelas comuns necessidades e
interesses, foi surgindo, do fundo dos séculos, para que um dia nascesse
Portugal.
Os
Lusitanos – muito provavelmente de origem celtibérica, e principalmente
acantonados na região interior da Beira – foram o primeiro grande povo da
Península Ibérica de que a história nos fala com algum desenvolvimento.
Conheciam as armas de ferro e eram bravíssimos. No século III a. C. expande-se
de maneira fulminante e dominam toda a região entre o Tejo e o mar Cantábrico.
A sua celebridade deve-se às lutas que mantiveram contra Roma. Estrabão
considerava-os <<a mais poderosa das nações ibéricas, a que, entre todas,
por amis tempo deteve as armas romanas>>. A religião que habitaram – a
Lusitânia – insere-se em grande parte, no que é hoje território português.
O
general romano Sérgio Galba quase alcança dizimá-los, mas, de entre os que
escaparam, um novo chefe surgiu – Viriato – que ficará para sempre como símbolo
da independência lusitana. Roma chega a pactuar com ele, quase o reconhecendo
como soberano para, poucos anos mais tarde, pagar a três dos seus companheiros,
que o assassinaram traiçoeiramente.
Uma
vez morto o chefe, esfrangalha-se a resistência do povo heroico. Roma consegue
finalmente dominar a Lusitânia. Os vencidos são romanizados, passam a viver à
maneira romana, segundo a civilização de Roma. A sua civilização própria, a
civilização lusitana, que a tinham e bem definida, perde-se, esquece-se, na
bruma dos tempos e na memória dos homens. Esta parte do mundo que é a Península
Ibérica, esta faixa do Extremo Ocidente, que há de ser Portugal – cuja zona
costeira, onde havia importantes cidades, estava há muito ligada comercialmente
à região mediterrânica, integra-se no mundo greco-romano, do qual não há de
mais separar-se. Pouco depois virá o Cristianismo a trazer-lhe o traço que
ficará como o mais forte da sua personalidade. A Península surgirá então como a
parte do mundo em que mais profundamente há de ser sentida e vivida a Lei de
Cristo. E nela a terra que há de chamar-se Portugal, logo se distingue pela
maneira entusiástica e fiel como aceita e segue a verdade do Evangelho.
O
nosso surgimento como Estado foi do tipo traumático
e desse traumatismo nunca na verdade nos levantamos até a plena assumpção da
maturidade histórica prometida pelos céus e pelos séculos a esse rebento
incrivelmente frágil para ter podido aparecer, e misteriosamente forte para ousar
subsistir. (...) A mistura fascinante de fanfarronice e humildade, de
imprevidência moura e confiança Sebastiana, de <<inconsciência
alegre>> e negro presságio, que constitui o fundo do carácter português,
está ligada a esse acto sem historia que
é para tudo quanto nasce o tempo do seu nascimento. Através de mitologias
diversas, de historiadores ou poetas, esse acto sempre apareceu, e com razão,
como da ordem do injustificável, do incrível, do milagroso, ou num resumo de tudo isso, do providencial. (LOURENÇO, 1998, p. 18)
O povo português é constituído por misturas de etnias,
de povos que invadiram a Península Ibérica como os Celtas, os Romano, os
Suevos, os Visigodos (século V), os Moiros, entre outros. Houve uma romanização
na Península Ibérica. Os romanos desembarcam na Península no ano 218 a.C. e ano
de 209 empreendem, então, a conquista da região. Todos os povos da Península,
excetuando os Bascos, adotam o latim como língua e, mais tarde, todos abraçarão
o cristianismo.
Em 409, invasores germânicos - vândalos, suevos e
alanos – afluem ao sul dos pirineus, seguidos, mais tarde, pelos visigodos.
Assim começa um dos períodos mais obscuros da história peninsular, que
terminará em 711, com a invasão muçulmana. Eles – os muçulmanos – invadem e em
pouco tempo conquistam a Península Ibérica. Estes muçulmanos eram árabes e
berberes. Tinham o Islão como religião e o árabe como língua de cultura, mesmo
aqueles que falavam o berbere. Os povos ibéricos chamaram-nos “mouros”. Começa
então a reconquista cristã que expulsa os mouros para o sul. É durante a
reconquista que nascerá, no século XII, o reino independente de Portugal.
A invasão muçulmana e a Reconquista são acontecimentos
determinantes na formação das três línguas peninsulares – o galego-português, o
castelhano e o catalão. A língua galego-portuguesa vai sofrer uma evolução
gradativa e transformar-se no português.
Como se observa os fatos, Portugal recebeu influência
de vários povos “imigrantes” até se constituir como país. O ser nacional para
esse povo é de importantíssima
representação. Segundo Eduardo Lourenço o português se vê garantido, protegido
em sua pátria,
É de uma lucidez e de uma sabedoria mais fundas que a
de todas as explicações positivas, esse sentimento que o português teve sempre
de se crer garantido no seu ser nacional mais do que por simples habilidade e
astúcia humana, por um poder outro, mais alto, qualquer coisa como a mão de Deus. (LOURENÇO, 1988, p. 19)
Isso porque há uma ambiguidade muito patente no povo
português entre o físico e o metafísico numa mistura mística além de
apresentarem um complexo ambivalente em relação a sua existência,
(...) a relação histórica (...) enquanto entidade
nacional. Nela se reflete a consciência de uma congenital fraqueza e a
convicção mágica de uma proteção absoluta que subtrai essa fragilidade às
oscilações lamentáveis de todo o projecto humano sem a flecha da esperança a
orientá-lo. Esta conjunção de um complexo de inferioridade e superioridade
nunca foi despoletada como conviria ao longo da nossa vida histórica e, por
isso, misteriosamente nos corrói como raiz que é da relação irrealista que mantemos conosco mesmos.
(LOURENÇO, 1988, p. 23)
Apesar desse sentimento ser congênito nesse povo é no
mundo moderno que as culturas nacionais em que nascemos se constitui em uma das
principais fontes de identidade cultural,
A condição de homem exige que o indivíduo, embora exista
e aja como um ser autônomo, faça isso somente porque ele pode primeiramente
identificar a si mesmo como algo mais amplo (...) que ele reconhece
instintivamente como seu lar. (SCRUTON, 1986, p. 156)
Esse patriotismo, esse sentimento de grandeza os
acompanha até os dias de hoje quando se recusam a assinar o acordo ortográfico
da língua portuguesa com receio de perder a exclusividade que alegam ter em
relação a ela, mas que na verdade também já a herdaram de outros povos. Os
primeiros textos escritos em português surgem no século XIII. Nessa época, o
português não se distingue do galego, falado na província (hoje espanhola) da
Galícia. Essa língua comum, o galego-português ou galaico-português, é a forma
que toma o latim no noroeste da Península Ibérica.
(...) de esconder de nós mesmos a nossa autêntica situação de ser histórico em estado de intrínseca fragilidade. Nós fomos, nós somos uma pequena nação que desde a hora do nascimento se recusou a sê-lo sem jamais se poder convencer que se transformara em grande nação. (...), poucas vezes um povo partindo de tão pouco alcançou (embora sob uma forma desorbitada fautora de nova consciência de impotência mascarada de poderio) um direito tão claro a ser tido por <<grande>>. (LOURENÇO, 1988, p. 42)
Assim como a exaltação da terra natal está no poema,
Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, assim também é o ufanismo português com a
sua pátria:
Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem
mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite, Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem
primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra, Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

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