O
romance de Olga Gonçalves, A Floresta em
Bremerhaven, vai propor o estrangeiro como ponto de partida para se pensar
a lusitanidade, objetivando assim ampliar o quadro em que o próprio conceito de
identidade se insere. Busca a ideia de que a imagem de identidade de um povo se
constrói a partir de bases flexíveis, que deve levar em consideração, para a
identidade nacional, os fatores específicos constituintes de cada etnia. E abre
a obra com o seguinte poema:
Aproximamo-nos.
Queremos entrar. Mas a morada é imensa: há cantos, há degraus, há o limiar, o
fim de cada tempo. O que paira em extensão. E se fecha em floresta: espessura
de remoto silêncio. Coando noutro espaço. Onde o homem rasga a pele e distingue
o som das próprias forças no seu corpo aberto. (OLGA GONÇALVES, 1980, p. 9)
O emigrante é um exilado voluntário. Independente de ter saído de seu país de origem por sentir certa conexão com o novo país ou de passar por várias privações em seu país de origem, ou mesmo de correr risco de morte em tal lugar, o estrangeiro teve a opção de sair, de deixar seu local conhecido e rumar para o desconhecido.
- Tudo isto era incluído no bilhete do imigrante, tudo despesas pagas pela fábrica, que nós já íamos com um contrato de trabalho. Foram pessoas de família que já lá estavam na Nordsee que nos arranjaram para nós irmos. Eles chamaram-me para lá com muito gosto, eu fui para lá com muito gosto, e quando lá cheguei é que fiquei de todo desmorecido com a chingaria que lá vi. O que é que eu lá vi? Ora! Jugoslávios, húngrios, espanhóis, franceses, ingleses, americanos, japoneses (...) – e turcos. (GONÇALVES, 1980, p. 18)
Essa opção de estar em determinado lugar já o difere do nativo, visto que esse resolveu estar lá e não somente e simplesmente nasceu em determinado lugar. A atitude aparentemente corajosa e desprendida de abandonar sua própria pátria para viver em uma pátria estranha esconde uma solidão e uma melancolia que cresce cada vez mais enquanto se é um estrangeiro.
(...) Porque a gente não se entendia uns aos outros, cada qual falava a sua linguagem. Havia um que percebia melhor os alemães, e esse dito que nos percebia fazia velhaquices à gente, o mesmo zangando-se com o pessoal sem que a gente pudesse explicar-se ou defender-se. (...) (GONÇALVES, 1980, p. 18)
Uma vez estando em território desconhecido, tudo é novo, tudo é diferente, tudo é melhor e, ao mesmo, tempo não se compara com o que havia em seu país de origem. Independente do motivo de se estar em um novo país, inserido em uma nova cultura, a melancolia estará sempre presente. O pensamento em quem ficou, na vida que ficou para trás e nos momentos que se perderam, acompanham sempre o estrangeiro. Iniciar novas relações com pessoas do país que o abriga é mais uma necessidade de estar em contato com pessoas e receber delas sua aprovação do que exatamente um prazer.
É demonstrada, ao menos inicialmente, uma insensibilidade por parte do emigrante com relação ao seu país abrigador e seus nativos. Conforme Julia Kristeva, a “indiferença é a carapaça do estrangeiro” que se “veste” com a ideia de ser um trabalhador e nada mais. A tentativa de manter um afastamento tem por prerrogativa excluir os nativos antes mesmo de uma possível exclusão. A suspensão de sua nacionalidade permite que o emigrado não tenha o sentimento de pertencimento a um local propriamente dito. Da mesma forma em que se encontra em determinado país, pode emigrar para outro que lhe possibilite uma melhor qualidade de vida.
Não pertencer a nenhum lugar, nenhum tempo, nenhum amor. A origem perdida, o enraizamento impossível, a memória imergente, o presente em suspenso. O espaço do estrangeiro é um trem em marcha, um avião em pleno ar, a própria transição que exclui a parada. Pontos de referência, nada mais. (KRISTEVA, 1994, p. 15)
A ideia do emigrante como um ser secreto sempre permeia as relações entre ele e o nativo. Esse segredo se configura pela inexistência de passado local, não tendo sido passados os anos anteriores naquele país, não há quem o conheça e que possa comprová-los. A possibilidade de criar uma nova “identidade” e livrar-se das amarras da família e da sociedade de onde se é oriundo permite ao estrangeiro uma liberdade muito maior do que qualquer outra experimentada em seu lugar de origem. Passa a ser possível configurar seu próprio código de conduta, muitas vezes, esse código vai de encontro ao que lhe era imposto anteriormente.
O emigrante, por mais adaptado que esteja, permanece em seu íntimo com a ideia de que não pertence a tal lugar. O sentimento de inadequação se mantém mesmo após iniciar uma nova família ou após sua presumível completa integração ao ambiente. Quando o estrangeiro emigra por alguma necessidade, seu pensamento é sempre direcionado ao retorno, mesmo que de forma breve como para passar o período de férias. Entretanto, seu pensamento final é sempre retornar definitivamente, mesmo que para isso, tenha de se submeter a uma vida frugal no exterior, beirando ao claustro, visando um futuro retorno mais rápido para sua terra natal.
Quando
eu abalei ficaram inda lá muitos. Não estavam a contar de eu abalar. Deixei
pena, que eu tive lá bons colegas, mas a minha mulher não quis lá estar mais
tempo. Que eu, por mim, tinha lá ficado. (...) Estávamos sempre a ver se
apanhávamos alguma coisinha em português, quando ouvíssemos uma voz portuguesa
a falar era um contentamento! Lembrávamo-nos do sítio. E eu lembrava-me deste
mar, das rochas, desta terra sem barreiras. Que na Alemanha também há terras
amplas, mas não tivemos lá a nossa criação. Fazer lá a velhice, não, mas ter lá
ficado mais um tempo, isso tinha ficado. Só um tempo, que eu gostava que a
nossa filha fizesse cá a sua mocidade. Aquela mocidade tem umas maneiras que eu
não queria dar à filha. (GONÇALVES, 1980, p. 70-71)
É comum tentar encontrar outros
estrangeiros para compartilharem experiências. Essa necessidade de ter outros
em igual situação o desoprime e permite se ver como igual, dentro de uma
sociedade em que se é ímpar. Independente da personalidade de tal imigrante, o
prazer compartilhado por ser compreendido é o responsável por unir pessoas,
mesmo que de personalidades díspares. Tanto melhor se esse alguém falar a mesma
língua e que seja proveniente do mesmo país. A falta de se escutar o idioma de
sua língua materna é aterradora em um ambiente imediatamente inóspito. Ouvir
sua própria língua e poder se expressar através dela é inegavelmente um consolo
e apazigua a necessidade de ter sempre de se forçar a melhorar seus
conhecimentos e sua pronúncia em uma língua estranha. Remete as lembranças de
sua vida deixada para trás que, na rememoração, sempre parece melhor e mais
doce do que se era realmente.
Por maior desprezo ou falta de interesse que se tenha, o conhecimento da língua do país onde se reside se faz muito importante. Conhecendo a língua é possível se integrar à sociedade, não sendo mais necessário de outra pessoa ou item para estabelecer uma comunicação. Melhorar a dialética na nova língua permite não ser mais acusado como um elemento estranho na sociedade de uma forma tão fácil. Entretanto, se o idioma não é apreendido pode acontecer do imigrante não mais tentar se integrar na sociedade e acabar se fechando e bloqueando uma interação. Essa falta de identificação com o idioma acaba por fazer calar o estrangeiro, o que Kristeva chama de “mutismo poliforme”. Observa-se mais e só fala depois de muito ponderar, evitando o desperdício e propagando o silêncio. Falar deixa de ser uma função natural, Kisteva afirma: “Trazer em si, como um jazido secreto ou como uma criança deficiente – benquista e inútil -, essa linguagem de outrora, que murcha sem jamais abandoná-lo. (...) Assim, entre duas línguas, o seu elemento é o silêncio”. Há, entretanto, o emigrante que prefere renegar sua língua materna. E, em alguns casos, renega também outros emigrantes provenientes do mesmo país de onde emigrou. Seja por total identificação com o novo país, seja para evitar lembranças desgostosas de um passado já distante, conforme narra Edward Said:
Pela
primeira vez, eu estava privado do ambiente linguístico de que dependia para
ter uma alternativa às atenções hostis dos anglo-saxões cujo idioma não era o
meu e que não hesitavam em deixar claro que eu pertencia a uma raça inferior e,
de algum modo, condenada. Quem enfrentou os obstáculos cotidianos da rotina
colonial saberá do que estou falando. Uma das primeiras coisas que fiz foi
procurar um professor de origem egípcia cujo nome me fora dado por um amigo de
minha família no Cairo. “Converse com Ned e ele fará vocês se sentir em casa no
mesmo instante”, disse nosso amigo. Numa ensolarada tarde de sábado, me arrestei
até a casa de Ned e me apresentei ao homem magro, rijo e de pele escura que era
também o professor de tênis com certa frieza. “Freddie.” Eu passei
imediatamente a falar em árabe, mas Ned levantou a mão para me interromper.
“Não, meu irmão, nada de árabe aqui. Eu deixei tudo isso para trás quando vim
para a América.” E isso foi o fim daquela história. (SAID, 2003, p. 306)
A solidão para o emigrante é algo permanente, a fala de compreensão dos nativos sobre determinados aspectos de sua personalidade faz com que o imigrante tenha a impressão de estar sozinho em uma ilha. Somente ele se compreende e não poderá compreender os nativos, pois por mais que conheça e adquira sua cultura, continua se mantendo como um elemento externo àquela sociedade. Conforme relata, Silvio R. Jorge em seu texto sobre a experiência do exílio:
(...)
no texto de autores que vivenciaram tal experiência, a presença do sentimento
de pertencer a um espaço intervalar, manifestado através de um discurso que
mescla repulsa e deseja pelos dois territórios – o perdido e aquele que se
vislumbra. (...) a voz magoada de quem, ao desvencilhar-se de sua origem,
permanentemente se vê em espaço alheio, convivendo com a solidão. (JORGE, 2003,
p. 157)
A
melancolia do emigrante não é finalizada ao retornar para seu país. É um
sentimento que se mantém, assim como o sentimento de inadequação. Retornando,
não se encontra a pátria da mesma forma como a deixou, se difere enormemente ao
que se guardava na memória, não acolhedora, não há efetivamente um reconhecimento.
Percorrendo as lembranças, tudo se encontra diferente, mesmo não tendo ocorrido
alteração alguma, a alteração que ocorreu foi internamente. Entre o lugar
idealizado e o lugar real, o retornado fica à margem, já não há o
reconhecimento e o sentimento de adequação, já não mais se pertence a tal
lugar. Permanecerá em mente a outra pátria, e as comparações entre ambas
permanecem a ocorrer, agora, entretanto, com um olhar mais ameno quanto aos
problemas da pátria acolhedora.
Uma vez tendo o emigrado retornado
ao seu país, passa-se a ter uma maior tendência a retornar ao exterior. Seja
para o país de antes, seja para um novo, os limites geográficos tornam-se
ultrapassados. A noção de espaço e a noção de pertencimento (ideia de “nação”) se
alteram, pode acontecer dessa sensação de pertencimento não mais retornar da
mesma forma que existia anteriormente, pode-se, porém, acolher a nova pátria
como sua própria.
Digo-lhe
uma coisa que nunca disse a ninguém e que até me cava aqui na testa. Sabe que
às vezes me lembra de abalar prà Alemanha? De abalar, pronto, de ir outra vez
prò estrangeiro. Não sei se estão a deixar sair homens prò Canadá. Quando me
chega esta ideia até se me põe uma dor de cabeça tão forte! Eu que estranhei lá
tanto, que trabalhei lá que nem um burro de carga. Não foi menos o que
trabalhei, não foi menos do que quando cá andava, só que foi doutra maneira.
Pois, pois, levava a mulher e a filha. Tinha mesmo que levar a mulher e a
filha! Não é isso o que um homem deve de fazer? Eu sei que é, eu sei. Ora! E
que ia eu fazer prò estrangeiro? Ideias me atravessam a cabeça. Que me
interessava agora abalar daqui? (GONÇALVES, 1980, p. 106)
Mesmo
tendo alcançado o que tanto foi almejado, o sentimento de não pertencimento se
mantém vigorando. Assim como a percepção de liberdade que se possui enquanto se
é um emigrante. Tende-se a suspender as relações existentes anteriormente como
a relação com o próprio país, com a família e com a religião. Sente-se mais
livre e esse sentimento impele a busca por mais liberdade e dificulta que o
indivíduo estabeleça novos vínculos permanentes ou que consiga reatar os
anteriores. Kristeva afirma: “Livre de qualquer laço com os seus, o estrangeiro
sente-se “completamente livre”. O absoluto dessa liberdade, no entanto, chama-se
solidão”. A liberdade está então atrelada à solidão. Aprender a lidar com a
solidão e com as relações adquiridas/reatadas posteriormente é o grande desafio
do emigrante, desafio este que se manterá de forma permanente.
Referências
bibliográficas:
DIAS, Gonçalves. A
Canção do exílio in Primeiros Cantos.
Ed.: Laemmert, 1957. Rio de Janeiro.
JORGE. Silvio Renato. A
experiência do exílio: desejo e repulsa entre dois espaços. Revista Letras,
Curitiba, 59, p. 157 – 164. Editora UFPR, jan./jun. 2003.
KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos. Rio de
Janeiro: Rocco, 1994.
LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade: psicanálise mítica
do destino português. 3. ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1988.
OLGA, Gonçalves. A Floresta em Bremerhaven. 3. ed. Lisboa:
Livraria Bertrand, 1980.
SAID. Edward W.
Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo. Ed.: Cia das Letras,
2003.

