quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A permanente solidão do emigrante, transposição dos espaços e suspensão dos limites geográficos





O romance de Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven, vai propor o estrangeiro como ponto de partida para se pensar a lusitanidade, objetivando assim ampliar o quadro em que o próprio conceito de identidade se insere. Busca a ideia de que a imagem de identidade de um povo se constrói a partir de bases flexíveis, que deve levar em consideração, para a identidade nacional, os fatores específicos constituintes de cada etnia. E abre a obra com o seguinte poema:
Aproximamo-nos. Queremos entrar. Mas a morada é imensa: há cantos, há degraus, há o limiar, o fim de cada tempo. O que paira em extensão. E se fecha em floresta: espessura de remoto silêncio. Coando noutro espaço. Onde o homem rasga a pele e distingue o som das próprias forças no seu corpo aberto. (OLGA GONÇALVES, 1980, p. 9)

O emigrante é um exilado voluntário. Independente de ter saído de seu país de origem por sentir certa conexão com o novo país ou de passar por várias privações em seu país de origem, ou mesmo de correr risco de morte em tal lugar, o estrangeiro teve a opção de sair, de deixar seu local conhecido e rumar para o desconhecido.

- Tudo isto era incluído no bilhete do imigrante, tudo despesas pagas pela fábrica, que nós já íamos com um contrato de trabalho. Foram pessoas de família que já lá estavam na Nordsee que nos arranjaram para nós irmos. Eles chamaram-me para lá com muito gosto, eu fui para lá com muito gosto, e quando lá cheguei é que fiquei de todo desmorecido com a chingaria que lá vi. O que é que eu lá vi? Ora! Jugoslávios, húngrios, espanhóis, franceses, ingleses, americanos, japoneses (...) – e turcos. (GONÇALVES, 1980, p. 18)

Essa opção de estar em determinado lugar já o difere do nativo, visto que esse resolveu estar lá e não somente e simplesmente nasceu em determinado lugar. A atitude aparentemente corajosa e desprendida de abandonar sua própria pátria para viver em uma pátria estranha esconde uma solidão e uma melancolia que cresce cada vez mais enquanto se é um estrangeiro.

(...) Porque a gente não se entendia uns aos outros, cada qual falava a sua linguagem. Havia um que percebia melhor os alemães, e esse dito que nos percebia fazia velhaquices à gente, o mesmo zangando-se com o pessoal sem que a gente pudesse explicar-se ou defender-se. (...) (GONÇALVES, 1980, p. 18)
           
             Uma vez estando em território desconhecido, tudo é novo, tudo é diferente, tudo é melhor e, ao mesmo, tempo não se compara com o que havia em seu país de origem. Independente do motivo de se estar em um novo país, inserido em uma nova cultura, a melancolia estará sempre presente. O pensamento em quem ficou, na vida que ficou para trás e nos momentos que se perderam, acompanham sempre o estrangeiro. Iniciar novas relações com pessoas do país que o abriga é mais uma necessidade de estar em contato com pessoas e receber delas sua aprovação do que exatamente um prazer.

É demonstrada, ao menos inicialmente, uma insensibilidade por parte do emigrante com relação ao seu país abrigador e seus nativos. Conforme Julia Kristeva, a “indiferença é a carapaça do estrangeiro” que se “veste” com a ideia de ser um trabalhador e nada mais. A tentativa de manter um afastamento tem por prerrogativa excluir os nativos antes mesmo de uma possível exclusão. A suspensão de sua nacionalidade permite que o emigrado não tenha o sentimento de pertencimento a um local propriamente dito. Da mesma forma em que se encontra em determinado país, pode emigrar para outro que lhe possibilite uma melhor qualidade de vida.

Não pertencer a nenhum lugar, nenhum tempo, nenhum amor. A origem perdida, o enraizamento impossível, a memória imergente, o presente em suspenso. O espaço do estrangeiro é um trem em marcha, um avião em pleno ar, a própria transição que exclui a parada. Pontos de referência, nada mais. (KRISTEVA, 1994, p. 15)
          
              A ideia do emigrante como um ser secreto sempre permeia as relações entre ele e o nativo. Esse segredo se configura pela inexistência de passado local, não tendo sido passados os anos anteriores naquele país, não há quem o conheça e que possa comprová-los. A possibilidade de criar uma nova “identidade” e livrar-se das amarras da família e da sociedade de onde se é oriundo permite ao estrangeiro uma liberdade muito maior do que qualquer outra experimentada em seu lugar de origem. Passa a ser possível configurar seu próprio código de conduta, muitas vezes, esse código vai de encontro ao que lhe era imposto anteriormente.
           
              O emigrante, por mais adaptado que esteja, permanece em seu íntimo com a ideia de que não pertence a tal lugar. O sentimento de inadequação se mantém mesmo após iniciar uma nova família ou após sua presumível completa integração ao ambiente. Quando o estrangeiro emigra por alguma necessidade, seu pensamento é sempre direcionado ao retorno, mesmo que de forma breve como para passar o período de férias. Entretanto, seu pensamento final é sempre retornar definitivamente, mesmo que para isso, tenha de se submeter a uma vida frugal no exterior, beirando ao claustro, visando um futuro retorno mais rápido para sua terra natal. 
Quando eu abalei ficaram inda lá muitos. Não estavam a contar de eu abalar. Deixei pena, que eu tive lá bons colegas, mas a minha mulher não quis lá estar mais tempo. Que eu, por mim, tinha lá ficado. (...) Estávamos sempre a ver se apanhávamos alguma coisinha em português, quando ouvíssemos uma voz portuguesa a falar era um contentamento! Lembrávamo-nos do sítio. E eu lembrava-me deste mar, das rochas, desta terra sem barreiras. Que na Alemanha também há terras amplas, mas não tivemos lá a nossa criação. Fazer lá a velhice, não, mas ter lá ficado mais um tempo, isso tinha ficado. Só um tempo, que eu gostava que a nossa filha fizesse cá a sua mocidade. Aquela mocidade tem umas maneiras que eu não queria dar à filha. (GONÇALVES, 1980, p. 70-71)
            É comum tentar encontrar outros estrangeiros para compartilharem experiências. Essa necessidade de ter outros em igual situação o desoprime e permite se ver como igual, dentro de uma sociedade em que se é ímpar. Independente da personalidade de tal imigrante, o prazer compartilhado por ser compreendido é o responsável por unir pessoas, mesmo que de personalidades díspares. Tanto melhor se esse alguém falar a mesma língua e que seja proveniente do mesmo país. A falta de se escutar o idioma de sua língua materna é aterradora em um ambiente imediatamente inóspito. Ouvir sua própria língua e poder se expressar através dela é inegavelmente um consolo e apazigua a necessidade de ter sempre de se forçar a melhorar seus conhecimentos e sua pronúncia em uma língua estranha. Remete as lembranças de sua vida deixada para trás que, na rememoração, sempre parece melhor e mais doce do que se era realmente.
           
              Por maior desprezo ou falta de interesse que se tenha, o conhecimento da língua do país onde se reside se faz muito importante. Conhecendo a língua é possível se integrar à sociedade, não sendo mais necessário de outra pessoa ou item para estabelecer uma comunicação. Melhorar a dialética na nova língua permite não ser mais acusado como um elemento estranho na sociedade de uma forma tão fácil. Entretanto, se o idioma não é apreendido pode acontecer do imigrante não mais tentar se integrar na sociedade e acabar se fechando e bloqueando uma interação. Essa falta de identificação com o idioma acaba por fazer calar o estrangeiro, o que Kristeva chama de “mutismo poliforme”. Observa-se mais e só fala depois de muito ponderar, evitando o desperdício e propagando o silêncio. Falar deixa de ser uma função natural, Kisteva afirma: “Trazer em si, como um jazido secreto ou como uma criança deficiente – benquista e inútil -, essa linguagem de outrora, que murcha sem jamais abandoná-lo. (...) Assim, entre duas línguas, o seu elemento é o silêncio”. Há, entretanto, o emigrante que prefere renegar sua língua materna. E, em alguns casos, renega também outros emigrantes provenientes do mesmo país de onde emigrou. Seja por total identificação com o novo país, seja para evitar lembranças desgostosas de um passado já distante, conforme narra Edward Said:
Pela primeira vez, eu estava privado do ambiente linguístico de que dependia para ter uma alternativa às atenções hostis dos anglo-saxões cujo idioma não era o meu e que não hesitavam em deixar claro que eu pertencia a uma raça inferior e, de algum modo, condenada. Quem enfrentou os obstáculos cotidianos da rotina colonial saberá do que estou falando. Uma das primeiras coisas que fiz foi procurar um professor de origem egípcia cujo nome me fora dado por um amigo de minha família no Cairo. “Converse com Ned e ele fará vocês se sentir em casa no mesmo instante”, disse nosso amigo. Numa ensolarada tarde de sábado, me arrestei até a casa de Ned e me apresentei ao homem magro, rijo e de pele escura que era também o professor de tênis com certa frieza. “Freddie.” Eu passei imediatamente a falar em árabe, mas Ned levantou a mão para me interromper. “Não, meu irmão, nada de árabe aqui. Eu deixei tudo isso para trás quando vim para a América.” E isso foi o fim daquela história. (SAID, 2003, p. 306)
            
              A solidão para o emigrante é algo permanente, a fala de compreensão dos nativos sobre determinados aspectos de sua personalidade faz com que o imigrante tenha a impressão de estar sozinho em uma ilha. Somente ele se compreende e não poderá compreender os nativos, pois por mais que conheça e adquira sua cultura, continua se mantendo como um elemento externo àquela sociedade. Conforme relata, Silvio R. Jorge em seu texto sobre a experiência do exílio:
(...) no texto de autores que vivenciaram tal experiência, a presença do sentimento de pertencer a um espaço intervalar, manifestado através de um discurso que mescla repulsa e deseja pelos dois territórios – o perdido e aquele que se vislumbra. (...) a voz magoada de quem, ao desvencilhar-se de sua origem, permanentemente se vê em espaço alheio, convivendo com a solidão. (JORGE, 2003, p. 157)
            A melancolia do emigrante não é finalizada ao retornar para seu país. É um sentimento que se mantém, assim como o sentimento de inadequação. Retornando, não se encontra a pátria da mesma forma como a deixou, se difere enormemente ao que se guardava na memória, não acolhedora, não há efetivamente um reconhecimento. Percorrendo as lembranças, tudo se encontra diferente, mesmo não tendo ocorrido alteração alguma, a alteração que ocorreu foi internamente. Entre o lugar idealizado e o lugar real, o retornado fica à margem, já não há o reconhecimento e o sentimento de adequação, já não mais se pertence a tal lugar. Permanecerá em mente a outra pátria, e as comparações entre ambas permanecem a ocorrer, agora, entretanto, com um olhar mais ameno quanto aos problemas da pátria acolhedora.
            Uma vez tendo o emigrado retornado ao seu país, passa-se a ter uma maior tendência a retornar ao exterior. Seja para o país de antes, seja para um novo, os limites geográficos tornam-se ultrapassados. A noção de espaço e a noção de pertencimento (ideia de “nação”) se alteram, pode acontecer dessa sensação de pertencimento não mais retornar da mesma forma que existia anteriormente, pode-se, porém, acolher a nova pátria como sua própria. 
Digo-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém e que até me cava aqui na testa. Sabe que às vezes me lembra de abalar prà Alemanha? De abalar, pronto, de ir outra vez prò estrangeiro. Não sei se estão a deixar sair homens prò Canadá. Quando me chega esta ideia até se me põe uma dor de cabeça tão forte! Eu que estranhei lá tanto, que trabalhei lá que nem um burro de carga. Não foi menos o que trabalhei, não foi menos do que quando cá andava, só que foi doutra maneira. Pois, pois, levava a mulher e a filha. Tinha mesmo que levar a mulher e a filha! Não é isso o que um homem deve de fazer? Eu sei que é, eu sei. Ora! E que ia eu fazer prò estrangeiro? Ideias me atravessam a cabeça. Que me interessava agora abalar daqui? (GONÇALVES, 1980, p. 106)
Mesmo tendo alcançado o que tanto foi almejado, o sentimento de não pertencimento se mantém vigorando. Assim como a percepção de liberdade que se possui enquanto se é um emigrante. Tende-se a suspender as relações existentes anteriormente como a relação com o próprio país, com a família e com a religião. Sente-se mais livre e esse sentimento impele a busca por mais liberdade e dificulta que o indivíduo estabeleça novos vínculos permanentes ou que consiga reatar os anteriores. Kristeva afirma: “Livre de qualquer laço com os seus, o estrangeiro sente-se “completamente livre”. O absoluto dessa liberdade, no entanto, chama-se solidão”. A liberdade está então atrelada à solidão. Aprender a lidar com a solidão e com as relações adquiridas/reatadas posteriormente é o grande desafio do emigrante, desafio este que se manterá de forma permanente.



Referências bibliográficas:
DIAS, Gonçalves. A Canção do exílio in Primeiros Cantos. Ed.: Laemmert, 1957. Rio de Janeiro.
JORGE. Silvio Renato. A experiência do exílio: desejo e repulsa entre dois espaços. Revista Letras, Curitiba, 59, p. 157 – 164. Editora UFPR, jan./jun. 2003.
KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade: psicanálise mítica do destino português. 3. ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1988.
OLGA, Gonçalves. A Floresta em Bremerhaven. 3. ed. Lisboa: Livraria Bertrand, 1980.
SAID. Edward W. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo. Ed.: Cia das Letras, 2003.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O passado do português e seu sentimento de superioridade como mecanismo de defesa



Falar de Portugal, estudar a sua história, é falar da Terra e do Mar. Com efeito, outras nações se constituíram, viveram ou vivem sem que o mar tivesse que ver com a sua existência. Portugal não. Portugal é Terra e é Mar.
            Para entendermos essa Pátria, a sua personalidade, mostrada ao longo dos séculos, a sua alma, há que ter diante dos olhos que, desde sempre, neste canto ocidental da Península Ibérica, o Mar e a Terra se uniram, de tal modo que ver a Terra é sentir o Oceano e ver o Mar é compreender a Terra... Por isso se pode dizer que, se a Terra é a carne de Portugal, o Mar é bem o seu sangue. Eis por que neste breve estudo em que vamos apontar aquilo que é fundamental na história portuguesa veremos a história da Terra e do Mar em que se criou, e vive e sofre e sonha o homem português...
            O que caracteriza o território onde havia de formar-se o Portugal europeu é ser uma estreita faixa situada na região ocidental da Península Ibérica e inclinada para o mar, de norte a sul, em declive suave. Terra que volta as costas ao território europeu, e vai olhando o mar, vai descendo para o mar, até mergulhar nele as suas areias doiradas ou as suas arribas imponentes... Terra que se abre, que se dá ao oceano e dele recebe a benção das brisas e das chuvas, a doçura do céu, a atração dos caminhos do infinito.  
            O mar que banha a terra portuguesa é o Atlântico. E, nessa região o Atlântico é ameno, benéfico... As suas águas, ao longo de toda costa de Portugal, são quentes e quase sempre calmas, os céus são límpidos e os ventos favoráveis. Há riqueza de peixe. Do calor das águas beneficia a terra e beneficiam os homens, que desfrutam por isso de um clima temperado, que ajudou a modelar a alma portuguesa... E da riqueza de peixe, e da calma e limpidez dos horizontes oceânicos, nasceu a vocação marítima dos habitantes desta extrema da Península Ibérica – nasceu a vocação marítima de Portugal.
            Quem foram os primeiros habitantes desta região? A resposta é difícil. Aceita-se que antes de Cristo, viveram na Península Ibérica gentes que dela seriam originárias, gentes que, tanto quanto se pode dizer, não tinha vindo de quaisquer outras regiões. Alguns chamam a estes primeiros habitantes, genericamente, Iberos. Porém desde muito cedo começam a encaminhar-se para esta zona povos de outras partes, fixando-se muitos deles na região mais ocidental - aquela que havia de ser, mais ou menos, a terra portuguesa -, misturando seu sangue com o dos naturais dela.
            Estes povos invasores, se considerarmos os Iberos como indígenas, foram os Fenícios, os Gregos, os Celtas, os Cartagineses, os Romanos, os Alanos, os Vândalos, os Suevos, os Visigodos e os Moiros. De entre todos foram muito importantes, rácica e culturalmente, os Celtas. De tão grande mistura de raças que ao longo dos séculos se foi fazendo (podemos dizer do século XII antes de Cristo até ao século VIII depois de Cristo) saíram os povos peninsulares, saiu o povo português.
As nações, com a responsabilidade histórica da gente portuguesa, não podem imobilizar-se extaticamente, nem devem iludir-se infantilmente; têm que desentranhar sucessivamente da massa das suas tradições e aspirações um ideal coerente com a conjuntura histórica, que exprima e defina o seu estar mudável em concordância com o seu ser permanente. (CARVALHO, 1953, in EDUARDO LOURENÇO, 1998, p.8)
Mostra-nos a história que os habitantes da parte mais ocidental da Península apresentaram sempre características especiais, que os tornaram, no decorrer dos tempos, diferentes dos outros povos iberos. Uma das suas características dominantes, já nas épocas remotas em que começa a sua história é o amor pela independência, que os leva sempre a negar-se, até à última, a viver subjugados por estranhos. 
Comportamento que trazem consigo desde as suas origens e que reflete também nas grandes navegações que tiveram início no século XV. Os europeus começaram a desenvolver o comércio entre a Europa e o Oriente (na Ásia, principalmente na região das índias). As chamadas especiarias eram originárias da Índia, da China e do Ceilão, chegavam as cidades de Alexandria e Constantinopla, trazidos pelos árabes. Essas mercadorias eram comercializadas na Europa por preços muito elevados, pelos comerciantes italianos. Portugal ambicionava fazer esse comercio, diretamente com as Índias, comprando os produtos e revendendo-os por um valor superfaturados. Por esse motivo, resolveram procurar um novo caminho para as Índias, viajando pelo Oceano Atlântico, contornando o sul da África.  
Dir-se-ia que as várias gentes que vieram no correr dos tempos instalar-se nesta faixa se foram adaptando, fundindo com uma personalidade popular forte, independente, que já aqui encontravam – e, assim, um mesmo caráter se manteve, se fortificou, se transmitiu no decorrer das idades, ainda que a raça se fosse alterando, enriquecendo, com as sucessivas fusões de sangue. Sangue dos que cá estavam antes das invasões? Sangue de celtas, de romanos, de suevos, de visigodos, de moiros? De toda essa nação tem algum – de uns mais, de outros menos, evidentemente... Mas, acima de tudo, uma personalidade diferente de cada uma das personalidades destes povos, uma personalidade vigorosa, moldada pelas misteriosas origens rácicas, pelo meio geográfico, pelas comuns necessidades e interesses, foi surgindo, do fundo dos séculos, para que um dia nascesse Portugal.
Os Lusitanos – muito provavelmente de origem celtibérica, e principalmente acantonados na região interior da Beira – foram o primeiro grande povo da Península Ibérica de que a história nos fala com algum desenvolvimento. Conheciam as armas de ferro e eram bravíssimos. No século III a. C. expande-se de maneira fulminante e dominam toda a região entre o Tejo e o mar Cantábrico. A sua celebridade deve-se às lutas que mantiveram contra Roma. Estrabão considerava-os <<a mais poderosa das nações ibéricas, a que, entre todas, por amis tempo deteve as armas romanas>>. A religião que habitaram – a Lusitânia – insere-se em grande parte, no que é hoje território português. 
O general romano Sérgio Galba quase alcança dizimá-los, mas, de entre os que escaparam, um novo chefe surgiu – Viriato – que ficará para sempre como símbolo da independência lusitana. Roma chega a pactuar com ele, quase o reconhecendo como soberano para, poucos anos mais tarde, pagar a três dos seus companheiros, que o assassinaram traiçoeiramente.
Uma vez morto o chefe, esfrangalha-se a resistência do povo heroico. Roma consegue finalmente dominar a Lusitânia. Os vencidos são romanizados, passam a viver à maneira romana, segundo a civilização de Roma. A sua civilização própria, a civilização lusitana, que a tinham e bem definida, perde-se, esquece-se, na bruma dos tempos e na memória dos homens. Esta parte do mundo que é a Península Ibérica, esta faixa do Extremo Ocidente, que há de ser Portugal – cuja zona costeira, onde havia importantes cidades, estava há muito ligada comercialmente à região mediterrânica, integra-se no mundo greco-romano, do qual não há de mais separar-se. Pouco depois virá o Cristianismo a trazer-lhe o traço que ficará como o mais forte da sua personalidade. A Península surgirá então como a parte do mundo em que mais profundamente há de ser sentida e vivida a Lei de Cristo. E nela a terra que há de chamar-se Portugal, logo se distingue pela maneira entusiástica e fiel como aceita e segue a verdade do Evangelho.
O nosso surgimento como Estado foi do tipo traumático e desse traumatismo nunca na verdade nos levantamos até a plena assumpção da maturidade histórica prometida pelos céus e pelos séculos a esse rebento incrivelmente frágil para ter podido aparecer, e misteriosamente forte para ousar subsistir. (...) A mistura fascinante de fanfarronice e humildade, de imprevidência moura e confiança Sebastiana, de <<inconsciência alegre>> e negro presságio, que constitui o fundo do carácter português, está ligada a esse acto sem historia que é para tudo quanto nasce o tempo do seu nascimento. Através de mitologias diversas, de historiadores ou poetas, esse acto sempre apareceu, e com razão, como da ordem do injustificável, do incrível, do milagroso, ou num resumo de tudo isso, do providencial. (LOURENÇO, 1998, p. 18)
O povo português é constituído por misturas de etnias, de povos que invadiram a Península Ibérica como os Celtas, os Romano, os Suevos, os Visigodos (século V), os Moiros, entre outros. Houve uma romanização na Península Ibérica. Os romanos desembarcam na Península no ano 218 a.C. e ano de 209 empreendem, então, a conquista da região. Todos os povos da Península, excetuando os Bascos, adotam o latim como língua e, mais tarde, todos abraçarão o cristianismo.
Em 409, invasores germânicos - vândalos, suevos e alanos – afluem ao sul dos pirineus, seguidos, mais tarde, pelos visigodos. Assim começa um dos períodos mais obscuros da história peninsular, que terminará em 711, com a invasão muçulmana. Eles – os muçulmanos – invadem e em pouco tempo conquistam a Península Ibérica. Estes muçulmanos eram árabes e berberes. Tinham o Islão como religião e o árabe como língua de cultura, mesmo aqueles que falavam o berbere. Os povos ibéricos chamaram-nos “mouros”. Começa então a reconquista cristã que expulsa os mouros para o sul. É durante a reconquista que nascerá, no século XII, o reino independente de Portugal. 
A invasão muçulmana e a Reconquista são acontecimentos determinantes na formação das três línguas peninsulares – o galego-português, o castelhano e o catalão. A língua galego-portuguesa vai sofrer uma evolução gradativa e transformar-se no português.
Como se observa os fatos, Portugal recebeu influência de vários povos “imigrantes” até se constituir como país. O ser nacional para esse povo é de importantíssima representação. Segundo Eduardo Lourenço o português se vê garantido, protegido em sua pátria,

É de uma lucidez e de uma sabedoria mais fundas que a de todas as explicações positivas, esse sentimento que o português teve sempre de se crer garantido no seu ser nacional mais do que por simples habilidade e astúcia humana, por um poder outro, mais alto, qualquer coisa como a mão de Deus. (LOURENÇO, 1988, p. 19)
Isso porque há uma ambiguidade muito patente no povo português entre o físico e o metafísico numa mistura mística além de apresentarem um complexo ambivalente em relação a sua existência,
(...) a relação histórica (...) enquanto entidade nacional. Nela se reflete a consciência de uma congenital fraqueza e a convicção mágica de uma proteção absoluta que subtrai essa fragilidade às oscilações lamentáveis de todo o projecto humano sem a flecha da esperança a orientá-lo. Esta conjunção de um complexo de inferioridade e superioridade nunca foi despoletada como conviria ao longo da nossa vida histórica e, por isso, misteriosamente nos corrói como raiz que é da relação irrealista que mantemos conosco mesmos. (LOURENÇO, 1988, p. 23)
Apesar desse sentimento ser congênito nesse povo é no mundo moderno que as culturas nacionais em que nascemos se constitui em uma das principais fontes de identidade cultural,
A condição de homem exige que o indivíduo, embora exista e aja como um ser autônomo, faça isso somente porque ele pode primeiramente identificar a si mesmo como algo mais amplo (...) que ele reconhece instintivamente como seu lar. (SCRUTON, 1986, p. 156)
Esse patriotismo, esse sentimento de grandeza os acompanha até os dias de hoje quando se recusam a assinar o acordo ortográfico da língua portuguesa com receio de perder a exclusividade que alegam ter em relação a ela, mas que na verdade também já a herdaram de outros povos. Os primeiros textos escritos em português surgem no século XIII. Nessa época, o português não se distingue do galego, falado na província (hoje espanhola) da Galícia. Essa língua comum, o galego-português ou galaico-português, é a forma que toma o latim no noroeste da Península Ibérica.

(...) de esconder de nós mesmos a nossa autêntica situação de ser histórico em estado de intrínseca fragilidade. Nós fomos, nós somos uma pequena nação que desde a hora do nascimento se recusou a sê-lo sem jamais se poder convencer que se transformara em grande nação. (...), poucas vezes um povo partindo de tão pouco alcançou (embora sob uma forma desorbitada fautora de nova consciência de impotência mascarada de poderio) um direito tão claro a ser tido por <<grande>>. (LOURENÇO, 1988, p. 42)

Assim como a exaltação da terra natal está no poema, Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, assim também é o ufanismo português com a sua pátria:

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
 
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
 
Em  cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
 
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
 
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.